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O Brasil está pronto para crescer 4% a 5% ao ano, aposta Mantega

03Out

Em ) - 10 13 15

Mantega afirma que cabe ao Estado puxar a economia com a política fiscal. O que está sendo feito com as medidas de renúncia fiscal, desoneração da folha, baixados juros e investimento em obras de infraestrutura

Após cumprir uma nova agenda em Paris e Londres, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, voltou ao país mais confiante do que nunca. Está convencido de que o Brasil é uma exceção diante do mau desempenho das economias da Europa e dos Estados Unidos e até mesmo dos países que formam os Brics. Ele rejeita o excesso de otimismo e, comas estimativas de analistas de mercado para a expansão do PIB de 2013 em mãos, garante que o pior já passou."Eu não sou otimista, sou realista. Com meu realismo e da maioria dos analistas brasileiros tenho certeza que a economia está se aquecendo.

Não de forma exagerada, mas gradual", diz o ministro. "Vamos ser pés no chão. Nós vamos crescer 4% e essa projeção é feita com a crise europeia continuando", afirma. O cenário poderia ser ainda mais positivo, disse Mantega em entrevista ao BRASIL ECONÔMICO, se os dirigentes dos Estados Unidos e da Europa adotassem uma certa dose keynesiana e atacassem a crise não só com golpes de política monetária. "Quando se entra em uma cri-se financeira tem de fazer uma política monetária expansionista combinada coma fiscal. O Estado tem que puxar a economia", explica, certo de que seus colegas estrangeiros estão equivocados.Apesar das dificuldades dos países desenvolvidos e da desaceleração da China, o ministro acredita que o Brasil tem plenas condições de continuar nadando contra a maré. Ressalta que o superávit comercial este ano será superior a US$ 18 bilhões.

Enquanto o mundo passa por esse momento de turbulência, o governo, explica, vai fortalecendo as bases de sustentação da economia com um conjunto de medidas, entre elas os programas de renúncia fiscal, a desoneração da folha de pagamentos, a redução das taxas de juros e o investimento em grandes obras de infraestrutura. "Vai demorar mais uns dois ou três anos para a Europa se ajustar. Quando isso acontecer, o Brasil estará preparado para aproveitar esse cenário internacional. E vai crescer a uma taxa média de 4% a 5% ao ano". Com relação ao esforço para reduzir o custo financeiro no país, afirma que as taxas cobradas pelos bancos ainda são muito altas e precisam cair mais.

"Acho razoável ter o mesmo nível cobrado em países semelhantes ao Brasil, que têm a estabilidade que nós temos, com a solidez que nós temos. Porque juro expressa o risco".Em relação ao próximo movimento na Selic, é taxativo: "Não sei o que o Copom vai fazer, nem quero saber. Esse é um assunto que o Banco Central tem total autonomia". O ministro reage às afirmações de que o governo estaria abandonando o regime de meta de inflação e pondo em risco um dos principais fundamentos da economia. "O governo nunca foi e nunca estará conivente coma inflação. A inflação aqui no Brasil está controlada há muitos anos. Nos últimos três ou quatro anos está mais controlada, ainda mais na nossa gestão" diz, sem esconder que vive uma fase de ótimo humor. O único motivo de desagrado é o tom cinzento do novo carpete de seu gabinete recém-reformado, que, para ele, não combina com os valiosos tapetes persas do ambiente.


O senhor continua otimista em relação ao fim do ano, achando que a economia vai deslanchar mesmo?

Eu não sou otimista, sou realista. Com meu realismo e da maioria dos analistas brasileiros tenho certeza que a economia já está se aquecendo. Não de for-ma exagerada, mas gradual. Isso aqui (mostrando um documento) eu apresentei no seminário The Economist: pegamos aleatoriamente projeções de mercado e é nítida a curva ascendente da economia brasileira..

Em torno de 4%...

Não é espetacular. É um aquecimento gradual. Isso levando em conta que ainda não foram postas em prática inúmeras medidas que anunciamos, como a desoneração da folha. Agora em agosto iniciaram 15 setores. Os outros 25 começam em janeiro. O câmbio melhor já está tendo efeitos também. Dados da Abimaq mostram que o déficit comercial diminuiu, e esse setor de bens de capital é o mais atingido pelo dólar. O câmbio vai melhorar vários setores.

Quando poderemos ter uma trajetória de crescimento sustentado em torno de 5%?

O próximo ano continua sendo de dificuldades. O Brasil tem um potencial de crescimento, mas depende do investimento que é a variável-chave para isso. Prevemos que o investimento cresça 10% no ano que vem. Nós temos que voltar ao nível de aumento do investimento que tivemos em 2006, 2007, 2008 e 2009, que era acima de 10%. E para isso o governo estará dando todas as condições. Vamos ter um mercado de dívida corporativa privada que vai crescer, pois era inibido pela Selic, a taxa de juros elevada e pela dívida pública. Como a dívida pública brasileira está encolhendo, abre espaço para a dívida privada, ou seja, captação pelas empresas.

O cenário internacional pode prejudicar o cenário interno de 2013? A situação do mundo azedou de novo?

A situação nem azedou nem melhorou, ficou na mesma. Os europeus estão arrastando essa crise porque demoram para tomar as medidas necessárias e então o problema não se resolve. Nós continuamos onde estávamos um ano atrás do ponto de vista da crise da União Europeia. Eles avançam atrás da crise. Estão sempre a dois ou três passos atrás. A crise sobe de elevador e as soluções, de escada.

Essa falta de senso de urgência deles não pode afetar o Brasil no ano que vem?

Não pode porque nós somos mais resilientes do que outros países à crise internacional. E nós nos adaptamos a ela. Sofre-mos um impacto nos últimos 12 meses particularmente porque ela recrudesceu no meio do ano passado. Nesse período sofremos uma desaceleração e tomamos várias iniciativas para contrabalançar isso.O Brasil é um dos que menos dependem dos mercados de países avançados. Apenas 6% do nosso PIB é explicado pelas exportações para essas regiões. So-mos pouco suscetíveis e estamos em uma posição muito melhor do que a China e a Índia. Além disso, nosso mercado interno continua dinâmico e crescendo.


A China desacelera. Em que medida é uma preocupação?

Está desacelerando, sim.Mas está mantendo, pelo menos conosco, um nível de relações comerciais elevado. Acredito que, neste ano, teremos um resultado comercial parecido com o de 2011. As projeções iniciais eram entre US$ 15 bilhões e US$ 18 bilhões. Escreve aí que nós teremos um superávit comercial maior do que isso. Porque estamos conseguindo impedir que o real se valorize nesta conjuntura

Como esses fatores, combinados, afetam o Brasil?

Vamos ser pé no chão. Nós vamos crescer 4% e essa projeção é feita com a crise europeia continuando. É claro que seria muito maior se a Europa estivesse se recuperando. A crise europeia nos tirou cerca de 1 ponto percentual de crescimento no ano passado.

E este ano?

A mesma coisa. Não dá para saber com precisão, mas nos tira um percentual do PIB, sim. Como tomamos várias medidas, o Brasil tem condições de recuperação principalmente por causa da política fiscal. Acho que a nossa grande diferença em relação aos Estados Unidos e à Europa é que nós fazemos política fiscal anticíclica e eles não fazem. Nós combinamos uma política monetária mais flexível, sem os exageros que eles cometem, com uma política fiscal anticíclica.

Eles estão usando basicamente política monetária...

Exato. Aliás, eu diria que, na Europa, nem monetária. Já os Estados Unidos deveriam fazer política fiscal. E aí a monetária estaria alinhada, seria complementar.

Eles estão perto do que está sendo chamado de abismo fiscal...

A economia americana continua sendo a mais poderosa do mundo porque emite a moeda que é reserva de valor no mundo. Cerca de 70% transações comerciais são feitas com a moeda americana, embora os Estados Unidos só participem entre 30% a 40% dessas transações. Então, quem tem essa maquininha de gerar moeda...

E nós temos a nossa maquininha de abrir mão de arrecadação. Isso tem um limite?

A nossa política fiscal anticíclica é composta de estímulos ao investimento e para isso reduzi-mos taxação, o custo financeiro e tributos, como sobre a folha de pagamento.

Mas isso tem um teto?

Este ano vamos terminar com desonerações de algo entre R$ 44 bilhões e R$ 45 bilhões, ou seja, 1% do PIB. Se você olhar os países europeus verá que estão fazendo ao contrário, estão aumentando tributo e cortando investimento.

Eles teriam condições de abrir mão de tributos?

Teriam. Desse jeito eles acabam caindo em um círculo vicioso. Todos vão ter recessão, o PIB negativo. Como a dívida e o déficit são calculados em relação ao PIB, esses indicadores vão crescer só pelo efeito estatístico. Assim, eles têm de fazer um corte muito grande para dar algum resultado. É claro que há situações bem diferentes dentro do continente europeu. Há países que podem fazer política fiscal e outros que não podem. Os países que podem têm a obrigação de fazer uma política que estimule os que não podem. A Grécia, por exemplo, não tem como fazer investimento, mas a Alemanha, e, mesmo a França, podem fazer um grande programa de investimentos que exerça alguma demanda sobre a Grécia.

Então, quais as suas perspectivas para o cenário externo?

Os Estados Unidos estão crescendo entre 1,8% e 2%. Não é pouco, mas isso não gera os empregos que eles precisam. Também, eles exportaram seus empregos para a Ásia e agora não adianta chorar o leite derramado. Então teriam que crescer entre 3% e 4%. Mas só com política monetária não vai resolver. Esse novo Quantitative Easing [QE, um programa de afrouxamento monetário] não vai acelerar o crescimento. Isso, implicitamente, é reconhecido pelo próprio Fed [Banco Central americano] quando diz que vai estendê-lo até 2015. Estudo da Goldman Sachs indica que o desemprego só vai cair para 7% em 2015 ou 2016. Num primeiro momento, quando uma economia tem uma crise financeira, precisa de liquidez. Então eles fizeram o primeiro QE, de US$ 1,5 trilhão. Mas depois fizeram o segundo de US$ 600 bilhões. Esse já era duvidoso porque nós temos a demonstração que o recurso em vez de ir para a produção americana foi para commodities. Veja o preço do petróleo.

Está faltando uma visão Keynesiana lá?

Exatamente. Porque a visão Keynesiana fala sobre a armadilha da liquidez. Quando entra em uma crise financeira tem de fazer uma política monetária expansionista combinada com a fiscal. O Estado tem que puxar a economia. Agora, como vão fazer uma política fiscal se o principal objetivo é reduzir o déficit que está na casa de 9% ou 10% do PIB para 3% do produto em um período curto. Não dá.

Ao menos há algum sinal de recuperação?

Há alguns sinais positivos no mercado imobiliário, que lá tem um peso grande e que ficou travado nesses quatro anos porque eles não fizeram nada. Em vez de renegociarem as dívidas e recuperarem a capacidade do endividado... Os preços chegaram ao fundo do poço e começam a dar um sinal de vida. Uma elevação do preço das moradias. E isso significa riqueza para o americano. A economia americana tem mais dinamismo que a europeia e é mais fácil de recuperar, mas eles escolheram o caminho mais longo, mais difícil.

E estão em período de eleições...

A eleição pode criar novas condições. Porque, verdade seja di-ta, o presidente Barack Obama não pode fazer política fiscal. O partido Democrata quer fazer, mas os Republicanos bloqueiam essa possibilidade. Agora, como há eleição e se forma uma nova bancada, se ele ganhar e fizer maioria, pode ser que ele olhe para isso.

E a Europa?

Vai demorar mais uns dois ou três anos para se ajustar. Quando isso acontecer, o Brasil estará preparado para aproveitar esse cenário internacional. Vai crescer a uma taxa média de 4% a 5% ao ano. Enquanto isso, com as medidas que tomamos, teremos um grande volume de investimentos em infraestrutura aqui no Brasil e, com isso, uma oferta mais barata. Esta-mos dando oportunidade para os investidores internacionais porque hoje não tem onde in-vestir. Mesmo entre os BRICS o Brasil está numa situação privilegiada: tem um mercado de capitais bem organizado, um sistema financeiro sólido, regras muito claras, o investimento direto não é taxado, pode entrar e fazer remessas de lucros.

Mas se entrar muito o senhor vai elevar o IOF, não é?

Eu não estou ligando para a entrada de investimento direto. O que a gente faz é comprar os dólares, não deixamos no mercado para não pressionar o real. E vamos manter essa política.

Mas o senhor já ameaçou elevar o IOF...

Eu ameacei em função do Quantitative Easing porque esse é dinheiro de curto prazo, um capital que faz arbitragem.

Se o senhor identificar esse movimento...

Aí sim. Mas, por enquanto, ainda não está entrando. Na previ-são do Goldman Sachs, essa terceira etapa do programa dá mais US$ 1,2 trilhão. Se isso vier a acontecer, nós estaremos atentos. Vamos aumentar as reservas, não vamos deixar sobrar dólar na economia brasileira.

Começou a se falar de inflação novamente e que o Comitê de Política Monetária (Copom) talvez mantenha a taxa Selic porque há o temor de que a inflação saia um pouco do eixo. O senhor acha que essa avaliação é válida?

Eu não sei o que o Copom vai fazer, nem quero saber. Esse é um assunto que o Banco Central tem total autonomia. A inflação está controlada no Brasil. Este ano ela é menor do que no ano passado, portanto, a trajetória é descendente. No segundo semestre sobe um pouco por causa da sazonalidade de safra, chuvas, e tivemos um choque de grãos do mercado americano. Em compensação temos tomado uma série de medidas que baixam preço, como a redução do IPI [Imposto sobre Produtos Industrializados] para diversos produtos. Para o ano que vem, outras medidas vão vigorar como novas desonerações da folha de pagamentos e a redução da tarifa de energia elétrica, que baixam custos, portanto, tem que baixar preço.

O senhor teme um novo choque de oferta como o que tivemos no final de 2010, impulsionado pela especulação das commodities em razão dos recursos do Quantitative Easing?

A regra do sistema de metas diz que choque de oferta den-tro das margens não tem problema. Estamos agora diante de um choque de oferta como o de milho e soja e tem um impacto na inflação.

Não há risco inflacionário então?

Não há risco porque estaremos 100% vigilantes. Uma das prioridades da política econômica brasileira é não deixar a inflação crescer porque ela prejudica todo mundo.

Mas isso não significa elevação de juros?

Se a inflação subir, evidente-mente, haverá elevação de juros. Mas as perspectivas são benignas. Porque essa especulação das commodities já vem acontecendo. Por outro lado, o baixo nível do crescimento da economia mundial também é uma pressão baixista nas commodities, como minério de ferro. Evidentemente o Quantitative Easing dá uma pequena pressão,mas o nível baixo de crescimento vai na direção contrária.

O senhor não acha que é ruim ter uma inflação circulando entre 5% e 5,5% em uma economia que vai crescer entre 1,5% e 2%?

Isso ocorre fundamentalmente pelo choque de commodities. Foram sete meses seguidos com a inflação este ano abaixo da do ano passado, aí veio o choque de commodities e elevou.

O governo estaria mais conivente com a inflação, ministro?

O governo nunca foi e nunca estará conivente com a inflação. A inflação aqui no Brasil está controlada há muitos anos. Nos últimos três ou quatro anos está mais controlada, ainda mais na nossa gestão. No primeiro semestre de 2011 tivemos um aperto monetário forte por causa da inflação porque no fim de 2010 tivemos choque de commodities. Mesmo assim, como a economia estava aquecida, foi contaminada.

Internamente, o efeito colateral do aumento da classe média está impedindo a inflação de serviços ceder?

Não fica impedindo. É por isso que temos de aumentar a oferta, não só de infraestrutura, como também de serviços, logística. Ou seja, investimento.

Recentemente o senhor usou a palavra escorchante para falar dos juros dos bancos. Isso foi forte. Por que essa força toda?

Porque precisamos ser veementes para que sejamos ouvidos melhor.

Não estavam sendo ouvidos?

Estamos sendo ouvidos. Tanto que um banco baixou em 50% o juro do cartão de crédito e outro anunciou que vai baixar até o final do ano. Os dois públicos já tinham baixado. Mas, veja, isso aqui ainda é alto. Por isso, nós continuaremos tendo, a meu ver, uma redução do custo financeiro que já caiu no Brasil, mas ainda está elevado. O Banco Central divulgou que o juro médio no crédito livre é de 30,1%em agosto. Jáfoi mais de 40%.

Onde o senhor acha bom chegar? O que seria razoável?

Não tenho um número. Mas acho razoável ter o mesmo nível que é cobrado em países semelhantes ao Brasil, que têm estabilidade que nós temos, com a solidez que nós temos. Porque juro expressa o risco. Quando o Brasil lá atrás era um país que não tinha reservas, não era sólido, o risco-Brasil era 8 mil pontos básicos. Hoje é 160 pontos. Naquela época, como estava emprestando em um país arriscado, cobrava mais. Só que o Brasil mudou radicalmente, hoje é um país que reúne confiança, consegue colocar títulos de dez anos a 2,69% ao ano. Isso é menos do que o papel americano de mesmo vencimento há três anos.

Essa insistência do governo não pode ser entendida como um viés intervencionista?

Não há intervencionismo nenhum. O governo não pode falar? Democracia significa que todos nós podemos falar, não é verdade? Intervencionista se eu fizesse uma ameaça ao banco. Pelo contrário, o Brasil é um dos países mais democráticos sob todos os pontos de vista.

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