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Para FGV, economia ainda está aquecida

15Jul

Em ) - 10 13 2010

Chico Santos

O boletim Macro, da Fundação Getulio Vargas (FGV) de julho, que será divulgado segunda-feira, prevê que o Produto Interno Bruto (PIB) do Brasil crescerá 0,9% no segundo trimestre deste ano em relação ao primeiro, e 3,9% em 2011. O coordenador da publicação, economista Régis Bonelli, diz que está "achando pouco" o número anualizado porque a economia brasileira segue aquecida e a inflação idem, pressionada pelos serviços não transacionáveis.

Para Bonelli, a inflação "não dá trégua", apesar de as medidas restritivas já tomadas pelo governo terem reduzido o ritmo de crescimento do PIB para a casa dos 4%. Ele avalia, em entrevista ao Valor, que a economia brasileira está crescendo este ano dentro do seu potencial, mas diz que há pressões inflacionárias do passado e não basta aumentar a capacidade produtiva para resolver automaticamente o problema. Ele considera inevitável que os juros cheguem no fim do ano em 12,75% (estão hoje em 12,25%) e acha que o Brasil está bem preparado para a turbulência externa.

Valor: Os srs. praticamente acertaram na mosca o PIB do primeiro trimestre no boletim divulgado em maio [previsão de 1,4% e número do IBGE de 1,3%]. Agora, o mercado está oscilando muito em relação ao segundo trimestre. Os srs. já fecharam um número?
Régis Bonelli: O próximo boletim vai ser divulgado na segunda-feira. Para acabar com o suspense, a nossa previsão é 0,9%.

Valor: Então, os srs. concordam que já há algum efeito da política restritiva?
Bonelli: Sem dúvida! Mas, aparentemente, a economia ainda está muito aquecida. A julgar por esse ritmo, ela vai terminar o ano com mais de 4% de crescimento. O acumulado em 12 meses dá uma ideia anual. Em junho, nosso indicador estava em 4,9%. Isso, levando em conta que tivemos uns meses fracos no fim de 2010, deve fazer com que o índice do ano feche acima de 4%. A menos que a atividade econômica enfraqueça muito neste segundo semestre, o que aparentemente não está acontecendo, embora a gente ainda esteja no começo.

Valor: A previsão para este ano no boletim de maio era de 4,4%...
Bonelli: Agora nós baixamos para 3,9%, mas eu estou achando pouco.

Valor: O sr. acha que nesse patamar ainda existem pressões inflacionárias?
Bonelli: A gente está mais assustado com 2012, porque este ano eu acho que a inflação vai fechar no limite do teto da meta (6,5%), talvez um pouquinho abaixo. Não está havendo desaceleração dos preços da maneira como esperávamos. No ano passado tivemos nesses três meses de junho, julho e agosto uma inflação muito baixa. Agora está baixa, mas não tanto. O que achamos que dificulta o trabalho da política monetária é que você tem uma economia como se fosse assim, simplificando, com dois grandes setores: um segmento grande em termos de peso no nível de atividade que é o de "tradebles" (transacionáveis internacionalmente) que está sofrendo muito com o câmbio, não o agrícola, mas a indústria de transformação, e o outro segmento, que é o principal em termos de emprego, que é o de serviços, que, com algumas exceções, está bombando. Por isso é que a taxa de desemprego não aumenta. A nossa projeção de desemprego, dessazonalizada, para junho é igual à de maio, com 5,9%. No fundo, a taxa de desemprego está muito baixa para a experiência brasileira. Isso é bom, é o lado positivo. Por outro lado, ela está indicando uma economia ainda muito aquecida, apesar da desaceleração do nível de atividade. A gente está atribuindo esse descompasso ao fato de que os bens "non tradebles" (não transacionáveis externamente) estão vindo muito forte. A gente destaca no boletim de julho que está mudando a composição do índice de inflação deste ano em relação ao ano passado. Em 2010 tivemos uma inflação de alimentos muito forte. Este ano não vai ter. O que vamos ter este ano é mais inflação de serviços. No ano passado, 40% do IPCA foi alimentação. Este ano vai ser 20%.

Valor: Como analisar essa mudança?
Bonelli: Isso é uma coisa que nós vamos atacar no boletim. Eu estou pedindo ao pessoal da área de preços. O Salomão Quadros, nosso especialista em preços, tem uma ideia muito interessante de que muito da indexação é totalmente informal, não é contratual. Ele acha que a inflação que vem dos contratos é de 20% a 25% da inflação dos serviços. Ele vai desenvolver isso para nós e teremos depois uma imagem um pouco melhor.

Valor: Nesse cenário de pressão dos serviços, qual o papel da taxa de juros?
Bonelli: Isso exigiria, por incrível que pareça, uma dose maior de juros para segurar. Nossa previsão é que até o fim do ano a Selic [taxa básica do BC] vai chegar a 12,75%. O Banco Central já sinalizou. A inflação não vai dar trégua. Como eu já disse, este ano o IPCA vai ser um pouquinho mais alto do que no ano passado. Agora, para o ano que vem... Você sabe o que é que vem em janeiro, não é?

Valor: O aumento do salário mínimo.
Bonelli: É, e isso tem um efeito enorme sobre a estrutura de salários da economia que pega uma boa parte do setor de serviços.

Valor: Talvez seja o grande indexador ainda, não é?
Bonelli: Acho que no fundo, é, as pessoas se guiam. É o efeito farol, como dizem os economistas que estudam o mercado de trabalho. O salário mínimo é tido como salário de referência.

Valor: Nesse quadro, como os senhores estão vendo a perspectiva para o investimento?
Bonelli: O problema do investimento é que ele vem de um patamar muito alto no ano passado, por causa da recessão em 2009 [cresceu 21,8% em 2010]. Este ano ele vai fechar numa taxa muito mais baixa, algo perto de 7%. No trimestre a gente não tem ainda. O que temos é que no trimestre encerrado em maio o investimento cresceu 3,2% em relação ao trimestre anterior. E o IBGE nos deu no primeiro trimestre 1,2%. Ou seja, ele deu uma boa acelerada. Agora, em 12 meses está desacelerando muito fortemente. Em setembro/outubro do ano passado estava crescendo a 23% ao ano e agora está crescendo a uns 12% a 13% [até maio]. E nossa previsão é que chegue a 7% no fim do ano. O que não é ruim de jeito nenhum.

Valor: Nos últimos tempos tornou-se consenso que o PIB potencial do Brasil subiu de patamar, para algo em torno de 4,5%. O sr. acha que ele andou regredindo?
Bonelli: A gente está mais ou menos nessa trajetória, o PIB potencial está em quatro e pouco... Agora, tem pressões de inflação acumuladas do passado. Não é uma coisa tão automática: aumentou o hiato de capacidade [distância entre a produção e a capacidade de produzir sem pressão sobre os preços] e a inflação cai imediatamente. A gente sabe que não é assim. Eu acho que a economia brasileira poderia ir melhor. Não está indo mal, mas tem problemas sérios. Essa coisa do câmbio é um problema sério que, dizem os que entendem mais do tema, não se resolve com controle de capital. Enquanto os fundamentos da economia não estiverem mais bem delineados e a taxa de juros interna estiver dessa altura que está, o Brasil está sendo considerado, veja você, um refúgio de qualidade.

Valor: É uma contradição, porque, em geral, quem paga juros muito altos é objeto de desconfiança, não?
Bonelli: Exatamente. Essa história dos juros é um debate... O Valor fez uma excelente série de artigos de economistas, nos quais se viu que não há consenso. O problema para quem está lá no timão é: o que fazer agora? Vai jogar o regime de metas para o alto e baixar os juros na marra?

Valor: O cenário de crise internacional pode trazer para o Brasil impacto semelhante ao de 2009 [PIB negativo]?
Bonelli: Acho que não. A gente está mais sólido ainda, tem muita reserva. É claro que qualquer interrupção de linha de financiamento gera tumulto. E as reservas custam muito caro, mas, para alguma coisa elas servem. O que pode acontecer é o governo demorar um pouco a reagir. O Banco Central é competente, tem os instrumentos à mão, mas não pode se atrasar.

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