Por: CNTV | Confederação Nacional de Vigilantes & Prestadores de Serviços
Postado: 09/05/2018
SEGURANÇAS DENUNCIAM FALTA DE APOIO APÓS AÇÕES DE BANDIDOS
Somente este ano, três carros-fortes já foram explodidos na Paraíba, crimes que quase sempre têm alt
 

Para as transportadoras de valores, prejuízos financeiros. Para os profissionais responsáveis pelo tráfego das cifras milionárias, prejuízos psicológicos que, por serem ignorados pelas empresas contratantes, acabam perseguindo o trabalhador por anos.

Professor e pesquisador do curso de Psicologia na Faculdade Internacional da Paraíba (FPB), o psicólogo Aluizio Lopes avalia que a saúde mental desses trabalhadores tem sido posta de lado pelas empresas, criando, além de profissionais estressados, indivíduos amedrontados com o cotidiano.

“O estresse pós-traumático é invisível, não deixa marcas no corpo, como um tiro. Mas ele é tão doloroso e difícil de ser tratado quanto. Estes profissionais vivem em estado de ansiedade, que é a reação do corpo ao medo do inesperado, do que pode acontecer naquele dia de trabalho. Quando ele sofre o trauma, esse medo se materializa e acaba por interferir em toda saúde dessa pessoa”.

O presidente do Sindicato dos Trabalhadores de Transportadores de Valores da Paraíba (Sindesforte) e Diretor da CNTV, Laudivan Gonçalves, conhece de perto estes relatos. Ele explica que a profissão é estressante em período integral, dado o contexto sufocante da função em contraposição à falta de cuidados com a saúde mental dos trabalhadores.

“Infelizmente as empresas deixam a desejar. Elas não disponibilizam apoio psicológico. Nem mesmo quando existe uma ação específica, como uma explosão a carro-forte, nem no dia a dia. O ideal era que existisse um apoio constante, independente de existir uma explosão a carro-forte, por exemplo. Mas nem quando há uma situação dessas existe apoio”, explicou.

O estresse vivido por estes acontece mesmo depois do expediente, devido as múltiplas faces do crime, que muitas vezes ameaçam não somente o profissional, mas também aqueles que fazem parte do seu cotidiano, como filhos e esposa. Daí a necessidade de se investir no mínimo conforto mental destes trabalhadores.

“A tensão existe durante o serviço e também quando o serviço acaba. Hoje, muitos criminosos estão agindo explodindo os carros-fortes, mas muitos bandidos estudam os profissionais da segurança, buscam saber quem são seus familiares, sequestram filhos, esposas e obrigam esses trabalhadores a desviar os valores. É uma vida cheia de precauções e preocupações. Isso deixa qualquer um deteriorado”, destacou Laudivan Gonçalves.

Ficam os traumas

João Silva (nome fictício) trabalhou por 6 anos como segurança de empresa privada. Parecia um típico dia de serviço, quando o carro-forte em que trabalhava foi abordado por criminosos, que tentaram levar o montante coletado. Para defender o apurado, ele levou dois tiros. Um nas costas e um no braço, sequelas que ficaram não só no corpo, mas também no psicológico.

“Hoje não consigo ver um carro-forte na rua, que saio correndo, me afasto dele. A sensação de medo e insegurança toma conta. Tenho dois filhos e uma esposa, a gente pensa logo neles. Basta um tiro no lugar errado e a gente morre. Já tem 1 ano que estou afastado, fazendo terapia com psicólogo e psiquiatra para poder continuar encarando a vida”, disse.

Além das conversas semanais com o psicólogo e das doses diárias de ansiolíticos, o segurança precisa reordenar a vida, já que estabilidade emocional foi roubada desde que sofreu o atentado.

“Não quero mais trabalhar com isso, porque sinceramente não consigo continuar. Aconteceu comigo uma vez, mas já vi amigos levando tiros, outros ameaçados, outros mortos. Não quero isso para mim, vou precisar dar outro rumo na minha vida, mas por enquanto ta difícil”.

Da empresa que trabalhava, o segurança não conseguiu nada mais que lamento. “Eles não dão ajuda psicológica, infelizmente. Trabalhamos estressados, com medo. Fazemos tudo para fazer um bom trabalho, mas não temos retorno quando mais precisamos”, destacou.

Se fingiu de morto para escapar

Marcelo Dias (nome fictício) também passou por um atentado. Após 9 anos à serviço de uma transportadora de valores, o carro-forte em que trabalhava foi interceptado por criminosos. Para sobreviver, em meio a troca de tiros, precisou se fingir de morto, para que os bandidos não deixassem seus filhos órfãos e sua esposa viúva.

“Deitei no chão e me fingi de morto. Nessa hora a gente só pensa na família. Um dos bandidos chegou perto de mim, com uma AK47, arma de guerra, e deu chutes na minha cabeça. Como não reagi, ele foi embora. Talvez se eu tivesse me mexido eu tivesse levado um tiro na cabeça. Isso tudo deixa a gente abalado”, disse.

Marcelo agora faz tratamento psicológico e psiquiátrico para perder o estado de morte que adquiriu desde que sofreu o atentado. Diariamente toma um conjunto de medicamentos que o permitem encarar o dia a dia mais facilmente. Enquanto prestava serviço, Marcelo doou corpo e alma para executar o trabalho com eficácia. Encarou de frente os anos de uma profissão estressante em período integral. Agora, fragilizado, encontrou portas fechadas e braços cruzados por parte dos seus empregadores.

“O INSS já cortou meu benefício. O gerente da empresa disse que não pode fazer nada por mim. Passei 9 anos da minha vida dedicando minha vida, literalmente, à empresa. E eles dizem que não podem fazer nada por mim. A gente se sente descartado. Tenho filhos, esposa, uma família para manter. Mas os médicos já me consideraram inapto ao serviço. Não sei o que fazer daqui para frente”, disse o sobrevivente.

Após incidente, volta imediada ao trabalho

Somada à falta de assistência psicológica, muitos trabalhadores, após situações traumáticas, são coagidos a retornar de imediato ao serviço, denuncia o presidente do Sindicato dos Trabalhadores de Transportadores de Valores da Paraíba (Sindesforte).“Vivemos com o sistema nervoso abalado. Muitos saem dessas situações sem danos físicos, o médico examina, dá três dias de atestado e, quando termina esse tempo, a empresa exige o retorno do trabalhador. Ele volta, porque tem medo de perder o emprego”, disse Laudivan Gonçalves, acrescentando que o Sindicato tem tentado bancar os tratamentos dos profissionais mais afetados.

Na avaliação do psicólogo clínico Aluizio Lopes, ao retornar ao trabalho com saúde mental fragilizada, estes profissionais se tornam ‘bombas relógios’. Isso porque o corpo passa a responder, muitas vezes, em automático, uma espécie de legítima defesa baseada no que já vivenciou.

Ele defendeu maior fiscalização dos órgãos de defesa do trabalhador, já que o descaso com a saúde mental pode gerar um efeito em cadeia irreversível.

Empresas

O Sindicato das Empresas de Segurança Privada do Estado da Paraíba (Sindesp-PB), através da assessoria de imprensa, disse que acredita na conduta das empresas, no sentido de cumprir a legislação trabalhista, mas que não podia se pronunciar sobre as denúncias feitas, por se tratar de condutas específicas de cada empresa. Informou ainda que, em atendimento ao pedido das empresas, a entidade não se pronuncia sobre os ataques contra carros-fortes ocorridos este ano, na Paraíba.

Fonte: Correio da Paraíba